Um Encontro em Modo Avião
Tendo optado por ir numa pizzaria jantar, enquanto aguardava o pedido, iniciei minha atividade favorita observar.
O cheiro de queijo derretido e massa fresca preenchia o espaço, mas o que mais se impunha não era o ambiente, e sim a ausência de conversa.
Um casal entrou, sentou-se lado a lado e, apesar da proximidade física, parecia emocionalmente distante. Cada um mergulhado no próprio telemóvel, ligados apenas pelo brilho frio dos ecrãs.
Em determinado momento, ela tentou quebrar o silêncio.
— Como foi o teu dia?
A resposta veio curta, apressada e sem contacto visual. A tentativa de diálogo encerrou-se ali. Ela suspirou, voltou-se novamente para o ecrã, e o silêncio retomou o lugar. Era um silêncio cheio, cheio de palavras que não chegaram a existir, de perguntas que nunca seriam feitas.
Quando o atendente se aproximou para anotar o pedido, houve nova troca de palavras, restrita ao essencial, nomes de pizzas, números de bebidas, frases automáticas. Nada além do funcional, nenhum comentário espontâneo, nenhum riso partilhado, nenhuma presença real. Durante a espera, os dois permaneceram absortos nos aparelhos, como se estivessem juntos apenas por coincidência.
O pedido chegou.
Comeram em silêncio, de forma mecânica, quase como trituradores de alimentos, por um instante, questionei-me se o sabor da pizza importava, ou se sequer era percebido. Pagaram e saíram.
A pizzaria retomou o seu ritmo habitual, mas a cena permaneceu comigo.
Num espaço público cheio de pessoas, a sensação era de solidão.
Aquele silêncio não era exceção, mas sintoma de um tempo em que a presença física já não garante conexão.
Fiquei a pensar, que tipo de relações estamos a construir?
Quantos encontros se transformam apenas numa sobreposição de corpos e ecrãs, sem escuta, sem atenção, sem troca?
Quantas oportunidades de proximidade se perdem na urgência de mostrar, responder e publicar?
Ao sair da pizzaria, levei comigo aquela cena como lembrete, de que em tempos, em que estar presente fisicamente não significa estar conectado, a atenção se torna um ato de cuidado.
Sem atenção e empatia, as palavras perdem peso, os vínculos enfraquecem e a convivência torna-se cada vez mais superficial.
Num mundo cheio de ruídos e notificações, um gesto pode voltar a revolucionar, mais do que falar, mais do que responder, mais do que postar, ouvir.
Crónica de Bruno Collaço – (Maceió – AL)

O Porquê das Coisas
Aumento dos contactos, redução da profundidade das relações, interações rápidas e mediadas por ecrãs favorecem a autopromoção e enfraquecem a escuta genuína (Pós IA e as relações humanas, 2025; Vox, 2025).
Estudos em psicologia social mostram que a escuta ativa e empática, ouvir com atenção, responder adequadamente e considerar a perspetiva do outro, é essencial para criar conexão social (West et al., 2025; Hayakawa & Miyahara, 2024; Beheshti et al., 2024).
Mas ritmos de vida acelerados, distrações tecnológicas e a cultura de evitar conflitos (protecting your peace), tornam essa prática cada vez mais rara. O resultado são interações superficiais, funcionais e centradas na gratificação imediata, em detrimento de vínculos mais profundos e relações duradouras.
O desafio das relações humanas modernas não é apenas encontrar outras pessoas, mas aprender a ouvir verdadeiramente quando as encontramos.
Referências
Beheshti, A., Arashlow, F. T., Fata, L., et al. (2024). The relationship between empathy and listening styles: implications for doctors in training. BMC Medical Education, 24, 267.
Hayakawa, S., & Miyahara, K. (2024). Empathy through listening. Journal of the American Philosophical Association.
West, T. N., Huston, S., Chandler, K. R., Zhou, J., & Fredrickson, B. L. (2025). High quality listening behaviors linked to social connection between strangers. Communications Psychology.
Pós IA e as relações humanas. (2025). Comunica UFU.
“Protecting your peace” can kill your friendships. (2025, Feb 5). Vox. (https://www.vox.com)

Bruno Collaço, o autor do texto