31 Jan
31Jan

Já nos perguntamos, “como tudo veio a ser como é?”, já revisamos como as coisas se desenvolviam antes do período industrializado, escolhas, hábitos, consumo diário, o modo como nos conectamos uns aos outros e ao planeta. 

Depois dessa pergunta “simples, quase ingénua!”, nos fazer olhar para dentro e refletir sobre o caminho que trilhamos, chegou a hora de olhar para a frente, e tentarmos entender, para onde nos encaminhamos.  


Desde a Revolução Industrial, a humanidade experimenta uma transformação profunda em seu padrão de vida, caracterizada por aumentos expressivos na expectativa de vida, na produção material e no controlo tecnológico da natureza. 

Entretanto, esses avanços coexistem com crises nutricionais, ecológicas e existenciais que colocam em xeque a sustentabilidade do modelo civilizatório dominante. 

A análise contemporânea da qualidade de vida exige, portanto, uma abordagem integrada que considere não apenas indicadores económicos, mas também nutrição, relações sociais, bem-estar subjetivo e limites ecológicos.


Obras científico-analíticas e literárias, apresentadas na tabela acima, convergem ao indicar que o progresso material não equivale automaticamente ao “florescimento” humano. 

A narrativa dominante da humanidade nos conta que evoluímos para dominar a natureza, produzir mais, conquistar, crescer, progredir, palavras que soam como vitória, mas carregam consequências invisíveis, sejam, crises ambientais, desigualdade, ansiedade e desconexão. 

Sapiens (Harari), Ismael (Quinn), Admirável Mundo Novo (Huxley) e Walden (Thoreau), já referidos como base desta nossa conversa, escrevem uma crítica fundamental: a civilização moderna confunde progresso técnico com progresso humano. 

A evolução do padrão de vida humano mostra ganhos materiais inegáveis, mas também fragilidades que ameaçam a sustentabilidade. Todo o ganho e crescimento, não equivalem automaticamente a qualidade de vida integral, um progresso genuíno envolve consciência ética, integração ecológica e sentido existencial. 

Somente assim poderemos construir um padrão de existência pleno, equilibrado e sustentável, respeitando o planeta, os outros e a própria essência humana. 

A análise integrada do padrão de vida humano, revela que a crise contemporânea não é apenas ambiental ou nutricional, mas epistemológica. 

O modelo industrial elevou indicadores materiais e de longevidade, mas comprometeu a resiliência ecológica, a diversidade alimentar, as relações sociais e o sentido existencial. 

A ciência contemporânea da qualidade de vida e da sustentabilidade, reforça essa conclusão, indicando que o futuro da humanidade depende menos de expandir limites e mais de aprender a habitá-los.


Mas como transformar essa reflexão em ação concreta? 

Como transformar filosofia e ciência em um manual de transformação coletiva? 

Aqui vão caminhos possíveis: 

  • Desacelere, observe o que come, como se relaciona e o tempo que dedica às suas escolhas.
  • Muitos seguem padrões que nem sabemos de onde vêm, produção ilimitada, consumo incessante, pressa constante, pergunte a si mesmo: Isso realmente me serve? E à sociedade?
  • Compreender o impacto de suas ações no planeta, a ciência mostra que ultrapassar certos limites ecológicos ameaça a própria vida humana.
  • A natureza, o silêncio, a contemplação restaura perspetiva e bem-estar, mais do que acúmulo material, isso fortalece resiliência, criatividade e empatia.
  • O verdadeiro desenvolvimento humano não é medido apenas por produção ou riqueza, afinal, saúde, bem-estar, coesão social e equilíbrio ecológico importam tanto quanto tecnologia ou economia.
  • Aprender não é apenas acumular factos, desenvolver empatia, senso crítico e responsabilidade, a educação consciente transforma sociedades.
  • Do consumo de alimentos à energia que utiliza, cada decisão conta, equilíbrio entre necessidade e excesso, entre produção e regeneração, é a base para uma civilização que respeita a si mesma e o planeta.

 Refletir sobre a vida humana, sobre história e ecossistemas não é apenas exercício intelectual, é prática ética. É perceber que o universo que desejamos habitar começa dentro de nós. Ao nos reconectarmos com nossas intenções, valores e com o mundo natural, abrimos espaço para um futuro em que desenvolvimento e consciência caminham juntos. Um futuro em que liberdade, criatividade e bem-estar são tão importantes quanto eficiência e progresso tecnológico. 

O amanhã não está totalmente pronto, ele se constrói constantemente, em cada gesto, em cada decisão consciente, a pergunta que cada um de nós deve se fazer é clara: como queremos chegar adiante? 

Se desejamos um futuro promissor, precisamos transformar nossas atitudes internas e externas, tais como, menos pressa, mais presença, menos controlo, mais respeito, menos consumo, mais significado. 

No fim, a grande verdade é esta: 

O universo que esperamos não está apenas lá fora, ele pulsa dentro de nós, nas escolhas que fazemos a cada instante. 

E se começarmos a perceber isso, talvez possamos finalmente alinhar o que somos, o que fazemos e o mundo que queremos habitar.


 Obs.: todas as imagens foram geradas especificamente para este ensaio. 


Referências utilizadas para a série (Como viemos a ser quem somos e quem estamos nos tornando?):

Cameron, R., & Neal, L. (2003). A concise economic history of the world: From Paleolithic times to the present. Oxford University Press. 

Catton, W. R., Jr. (1980). Overshoot: The ecological basis of revolutionary change. University of Illinois Press. 

Estes, R. J., & Sirgy, M. J. (2017). The pursuit of human well-being: The untold global history. Springer. 

Harari, Y. N. (2014). Sapiens: Uma breve história da humanidade. Harper. 

Huxley, A. (1932). Admirável Mundo Novo. Chatto & Windus. 

Jackson, T. (1996). Material concerns: Pollution, profit and quality of life. Routledge. 

Landes, D. S. (1969). The unbound Prometheus: Technological change and industrial development in Western Europe from 1750 to the present. Cambridge University Press. 

Mumford, L. (1934). Technics and civilization. Harcourt, Brace & Company. 

OECD. (2014). How was life? Global well-being since 1820. OECD Publishing. 

OECD. (2021). How was life? Volume II: New perspectives on well-being and global inequality since 1820. OECD Publishing. 

Quinn, D. (1992). Ishmael. Bantam. 

Raworth, K. (2017). Doughnut economics: Seven ways to think like a 21st-century economist. Chelsea Green Publishing. 

Rockström, J., et al. (2009). Planetary Boundaries: Exploring the Safe Operating Space for Humanity. Ecology and Society

Stearns, P. N. (2013). The industrial revolution in world history (4th ed.). Westview Press. 

Thoreau, H. D. (1854). Walden. Ticknor and Fields.

Bruno Collaço, o autor do texto

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