Você já parou, para se perguntar “como as coisas vieram a ser como são?”
Não apenas os grandes eventos da história ou os avanços da humanidade, mas a sua própria vida: suas escolhas, seus hábitos, seus desejos, o mundo que você habita todos os dias.
Essa é a pergunta que atravessa Ismael, de Daniel Quinn. Uma pergunta simples à primeira vista, quase ingênua e justamente por isso tão poderosa. Quando pensamos nisso, algo em nós muda, ficamos inquietos, incertos sobre muitas coisas, repensando o modo automático de viver.
Ao longo da vida, aprendemos uma história sobre nós mesmos: a de que crescemos, dominamos, evoluímos, de que nosso destino é avançar sempre, produzir mais, controlar mais, conquistar mais.
Mas e se esse for apenas uma história entre tantas possíveis?
E se essa narrativa, tão repetida, tão normalizada, for também a raiz de muitos dos desequilíbrios, crises e desconexões que sentimos hoje?

Olhar para trás para enxergar o agora
Em Ismael, Quinn nos provoca ao mostrar que a civilização moderna se construiu sobre uma ideia silenciosa e poderosa, a de que o ser humano está separado da natureza. Que o mundo existe para ser dominado, reorganizado, explorado conforme a nossa vontade.
Essa crença moldou quase tudo: nossas cidades, nossos sistemas econômicos, nossos ritmos de vida e até nossos sonhos de sucesso.
Yuval Noah Harari, em Sapiens, amplia esse olhar ao revelar algo desconfortável: muitos dos chamados “avanços” da humanidade, como a revolução agrícola, e eu acrescento, industrial, trouxeram mais sofrimento do que liberdade. Mais trabalho, mais hierarquia, mais dependência de estruturas que não controlamos. Ainda assim, seguimos adiante, como se esse fosse o único caminho possível.
Isso nos leva a uma pergunta importantíssima, quantas das nossas conquistas realmente nos servem, e quantas apenas seguimos porque nos disseram que era assim que deveria ser?
Aqui surge uma perceção fundamental, o caminho do universo passa por dentro de nós.
Ao olhar para nossa história, percebemos que não estamos separados da Terra, da natureza ou do tempo.
Tudo o que aconteceu fora também ecoou dentro.
Somos continuidade, não exceção!
Quando desenvolvimento não é crescimento
Talvez o verdadeiro desenvolvimento humano não possa ser medido apenas pelo que construímos fora, prédios, máquinas, tecnologias, mas pelo que cultivamos dentro.
Henry David Thoreau, em Walden, nos lembra disso com uma simplicidade quase desconcertante. Ele nos mostra que o excesso, a pressa e a complexidade material podem nos afastar de quem somos, não por maldade, mas por distração.
Imagine-se caminhando lentamente por um bosque. O ar fresco, o som suave das folhas, o céu refletido na água. Nesse ritmo, algo se reorganiza por dentro. Thoreau nos convida a perceber que menos pode ser mais: menos ruído, menos acúmulo, menos urgência. E, em troca, mais presença, mais clareza, mais sentido.
É nesse espaço que começamos a nos reconhecer como parte de algo maior.
O universo não está apenas lá fora, ele pulsa em nós, respira connosco, se expressa através de nossas escolhas.
O futuro que já chegou
Talvez você já tenha sentido uma exaustão, uma inquietação silenciosa diante de um mundo que exige velocidade constante, desempenho contínuo, adaptação permanente.
Em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley descreve um futuro em que tudo funciona perfeitamente:
Eficiente, organizado, estável, mas o preço é alto, a perda da liberdade interior, da criatividade, da profundidade emocional.
Esse futuro já não parece tão distante, com nossas tecnologias digitais, redes sociais e inteligência artificial, temos acesso a conexão, informação e criação como nunca antes.
E, ainda assim, muitas vezes nos sentimos mais dispersos, mais ansiosos, mais distantes dos outros e até, de nós mesmos.
A tecnologia, quando não caminha junto com a consciência, nos aprisiona em rotinas que nos afastam daquilo que somos em essência.

A pergunta que abre caminhos
Quando perguntamos, “como as coisas vieram a ser como são?”, estamos falando também de nós.
Que histórias nos contaram?
Que crenças aceitamos sem questionar?
Que hábitos repetimos automaticamente?
E talvez a pergunta mais importante:
Que tipo de consciência estamos dispostos a cultivar agora?
O universo nos convida a alinhar nosso desenvolvimento ao que somos, e não apenas ao que nos disseram para ser, isso exige olhar para dentro, reconhecer padrões, revisar escolhas e agir com atenção, junto com o todo do qual fazemos parte.
Como seremos amanhã?
O futuro não está pronto.
Não é destino.
Não está escrito em pedra.
Ele se constrói a cada instante, em cada pensamento, em cada gesto, em cada decisão consciente.
Se repetirmos os mesmos padrões, colheremos versões ampliadas das crises que já conhecemos, mas se nos reconectarmos com o universo que vive em nós, se cultivarmos consciência, empatia e criatividade, abrimos espaço para um desenvolvimento mais íntegro, mais humano e mais sustentável.
Fica, então, o convite:
Como queremos ser amanhã como indivíduos, como humanidade?
O que estamos dispostos a transformar dentro de nós hoje, para que o amanhã seja diferente?
Porque, no fim das contas, o Universo que desejamos habitar não está apenas lá fora. Ele começa, e pulsa, dentro de nós.
Obs:
Este é o ponto de partida da série de ensaios “Como as coisas vieram a ser como são? E como virão a ser amanhã?”,
Exclusiva em O Caminho do Universo.

Bruno Collaço, o autor do texto