04 Jun
04Jun

 Sabes... Refletindo com pesar nestes detalhes que ainda não consigo compreender… as rugas cinzeladas na pele, o sonho quase adormecido na mudez do olhar, o corpo curvado pelo tempo, como a giesta que floriu e sem que o denunciasse, pouco a pouco foi perdendo a flor e a cor... 

Deambulo pelo chão deste sobrado e sinto o bater descompassado do relógio que carrego no peito. 

No silêncio da alma, grita o coração em expressão contida, dilacerado por uma estranha solidão. 

Dei-te tudo de mim enquanto pude. 

Foste a minha mais gratificante preocupação, o meu enlevo, orgulho e vaidade. 

Rasguei a terra por ti, plantei por ti, cuidei e colhi por ti. 

Tu, o meu menino adorado de quem agora nada sei. 

Esmaga-me a profunda tristeza que me grita este abandono por ti. 

Vem ver-me! Vem ver-me nem que seja uma última vez! O galo já não canta de madrugada, anunciando o novo dia que também em mim devia acontecer.


Vem ver-me antes que a luz se apague destes olhos núbios, encrustados no rosto cansado que reclama o abraço há muito esperado, neste colo que te viu nascer. 

Vem depressa! O frio adentra as portas da noite e adensa-se, gélido, em meu redor e eu não quero morrer sem te abraçar uma última vez e descobrir que nessa tua vida, o amor existe de verdade e és feliz. 

Nesse dia, meu sorriso franco abrir-se-á. 

Meu coração quebrado unir-se-á e saberei, finalmente, qual o caminho a seguir. 

Na folha da saudade que sempre sinto, derramarei aquela gota de sal que se susteve na minha face, mesmo quando sorria, tal como na minha garganta sempre que fui solidão. Garanto que não haverá rancor ou outro sentimento menor no meu coração. Para certificá-lo, existe o selo branco de um amor que nunca cansou. 

 – In “Mimos, Beijos e Outros Aconchegos 

Junho, 2024

Dulci Ferreira, a Autora da prosa poética

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