Desde que o ser humano começou a refletir sobre a sua existência, a questão essencial, como se organizou o mundo tal como o conhecemos e qual é o nosso lugar dentro dele?, não se limita à origem do universo ou das sociedades, mas está ligada as escolhas do quotidiano, na forma de viver, de nos alimentarmos, de organizarmos o tempo e de nos relacionarmos com o meio que habitamos.
Ao observar a trajetória humana, torna-se evidente que vida, consciência e sustentabilidade sempre estiveram profundamente interligadas.
Entre as comunidades caçadoras-recolectoras e as sociedades formadas ao longo da Antiguidade, existe um fio condutor essencial:
A interdependência entre corpo, mente, ambiente e cultura.
A história da alimentação, analisada à luz da filosofia e da ciência contemporânea, por exemplo, revela que o bem-estar humano nunca foi apenas uma questão de sobrevivência material, mas de integração com os sistemas naturais dos quais fazemos parte.
Essa integração não era ideal nem isenta de dificuldades, mas moldava a forma como o ser humano compreendia a sua relação com o mundo.
Nos primeiros agrupamentos humanos, a vida quotidiana estava fortemente ligada aos ciclos naturais. A alimentação variada, dependente da disponibilidade ambiental, e os períodos de atividade e descanso alinhados com a luz solar favoreciam um equilíbrio fisiológico que hoje compreendemos melhor através do estudo dos ciclos circadianos, ritmos biológicos que regulam funções fundamentais como o sono, o metabolismo, o humor e a cognição, a proximidade com a natureza significava, ainda que de forma intuitiva, respeitar esses ritmos internos do corpo humano.
Reflexões contemporâneas sobre a história da humanidade sugerem que essas sociedades funcionavam dentro de limites ecológicos mais evidentes.
Isto não significa afirmar que eram plenamente sustentáveis ou harmoniosas, mas reconhecer que existia uma relação mais direta entre necessidade, ambiente e consciência dos limites naturais. A sobrevivência exigia adaptação constante, favorecendo uma perceção integrada entre indivíduo e ecossistema.
Com o desenvolvimento da agricultura, a sedentarização e a centralização de recursos, a humanidade passou a beneficiar de maior estabilidade alimentar e crescimento populacional.
Em simultâneo, iniciou-se um afastamento gradual dos ritmos naturais.

A organização social tornou-se mais complexa, o tempo passou a ser mediado por estruturas políticas e económicas, e a relação com o ambiente tornou-se progressivamente menor, embora continuasse dependente da natureza, o ser humano começou a transformá-la de forma cada vez mais intensa.
Pensadores que refletem sobre a ideia de progresso alertam que avanços técnicos e produtivos não garantem, por si só, bem-estar ou liberdade.
Sociedades altamente organizadas podem alcançar eficiência e conforto material, mas também gerar desconexão, perda de autonomia e fragilização dos laços humanos.
Um paradoxo central da modernidade, quanto maior o domínio sobre o ambiente externo, maior o desafio de lidar com os efeitos dessa transformação sobre a própria natureza biológica e psicológica.

Esta reflexão não implica idealizar a vida pré-moderna.
Fome, doenças, violência e instabilidade ambiental eram realidades constantes.
Reconhecer essas limitações não impede, contudo, compreender que a proximidade com contextos naturais favorecia uma organização da vida mais compatível com os ritmos humanos fundamentais, algo que a modernidade fragmentou em muitos aspetos.
A filosofia e a ciência indicam que, viver bem, não depende apenas de conforto material, mas de consciência.
Alimentar-se, trabalhar, descansar e consumir não são atos neutros, são escolhas que moldam tanto o indivíduo como a sociedade.
Quando essas escolhas ignoram limites biológicos e ecológicos, os efeitos manifestam-se em múltiplas escalas, do corpo humano ao planeta.
A ciência contemporânea reforça esta visão ao revelar a nossa profunda interdependência com o cosmos e com os sistemas naturais da Terra.
Os átomos que compõem o corpo humano têm origem estelar, os ecossistemas funcionam como redes delicadas de equilíbrio, e os ritmos biológicos dependem de fatores ambientais fundamentais.
Compreender esta realidade aprofunda o sentido de responsabilidade ética, pois desequilíbrios internos e externos fazem parte do mesmo processo.

Desta forma, o desenvolvimento humano expressa-se também na capacidade de cultivar consciência, empatia, ética e resiliência.
Progresso material dissociado de reflexão gera fragilidade, integração entre conhecimento, ética e biologia favorece um bem-estar sustentável.
Refletir sobre alimentação, ciclos circadianos, sociedade e sustentabilidade é refletir sobre tempo, propósito e integração. Cada etapa histórica trouxe avanços e custos, e cada decisão quotidiana repercute-se numa rede mais ampla de relações.
O cosmos, a sociedade e o indivíduo não são esferas separadas, mas expressões interdependentes de um mesmo sistema vivo.
Hoje, nós vimos as bases da relação harmónica, ao longo da História da Antiguidade à Modernidade Industrial. No próximo ensaio, o foco deslocar-se-á para o período pós-Revolução Industrial, quando tecnologia, a urbanização e a lógica produtiva redefiniram profundamente a relação entre o humano e a harmonia sustentável no mundo contemporâneo.
Obs.: todos as imagens foram adquiridas de bancos de imagens disponibilizados na internet (livres para utilização).

Bruno Collaço, o autor do texto