Este mar imenso, azul e profundo, leva-me de pé na proa deste navio, roubando a brisa salgada aos sulcos de espuma, rasgadas que são as águas.
De longe (como se o navio tivesse um longe) a minha Mãe pedia-me aproximação e rapidamente o fiz porque ela sofria de medo do mar alto.
Tinham chamado os passageiros para o almoço.
Na sala, o comandante fardado de gala, recebia os comensais, acompanhado pelos oficiais de bordo tão garbosos quanto ele. Um deles, sem mais delongas, estendeu o braço apontando num convite com a mão calçada com alvíssima luva. A mesa era redonda e grande onde já aguardava outro oficial sorridente, que beijou a mão da minha Mãe e a minha também. Foi o primeiro homem que me beijou a mão.
Estranho, estranho este mundo cheio de etiqueta, tendo eu a sensação de ter entrado num filme daqueles que já não via.
Estranho, estranho este mundo, que me separava do passado deixado num cais antigo e me abraçava com o horizonte da aventura do futuro.
Senti-me afoita e destemida, pois para onde ia nada se comparava com o antes, apenas o reencontro com o meu Pai seria a ponte para o agora…quando lá chegasse.
A vida a bordo fluía um pouco louca.
Festas e mais festas, música e dança até doer os pés e os olhos de tanto piscar nos braços garbosos dos rapazes de branco.
O mundo quando quer também é fantasia, sonho, magia! Coisas tão necessárias para equilibrar a mente na esfera da vida.
Há sempre um navio que nos leva, há sempre um navio que nos traz.
Continua

Maria Dulce Araújo, a autora do texto