05 Feb
05Feb

Este mar imenso, azul e profundo, leva-me de pé na proa deste navio, roubando a brisa salgada aos sulcos de espuma, rasgadas que são as águas. 

De longe (como se o navio tivesse um longe) a minha Mãe pedia-me aproximação e rapidamente o fiz porque ela sofria de medo do mar alto. 

Tinham chamado os passageiros para o almoço.  

Na sala, o comandante fardado de gala, recebia os comensais, acompanhado pelos oficiais de bordo tão garbosos quanto ele. Um deles, sem mais delongas, estendeu o braço apontando num convite com a mão calçada com alvíssima luva. A mesa era redonda e grande onde já aguardava outro oficial sorridente, que beijou a mão da minha Mãe e a minha também. Foi o primeiro homem que me beijou a mão. 

Estranho, estranho este mundo cheio de etiqueta, tendo eu a sensação de ter entrado num filme daqueles que já não via.  

Estranho, estranho este mundo, que me separava do passado deixado num cais antigo e me abraçava com o horizonte da aventura do futuro.  

Senti-me afoita e destemida, pois para onde ia nada se comparava com o antes, apenas o reencontro com o meu Pai seria a ponte para o agora…quando lá chegasse. 

A vida a bordo fluía um pouco louca.  

Festas e mais festas, música e dança até doer os pés e os olhos de tanto piscar nos braços garbosos dos rapazes de branco. 

O mundo quando quer também é fantasia, sonho, magia! Coisas tão necessárias para equilibrar a mente na esfera da vida. 

Há sempre um navio que nos leva, há sempre um navio que nos traz. 


Continua

Maria Dulce Araújo, a autora do texto

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