
Jardim do Calvário, Castro Daire
Baixou o olhar e calou-se. De nada adiantava estrebuchar, defender-se ou retrucar, pois, se o fizesse, apenas conseguiria atear ainda mais a irada chama que se percebia no rosto afogueado do homem.
Diariamente, o mesmo ambiente hostil e aterrador. O mesmo ar pesado que lhe carregava os pulmões, já tão poluídos e manchados pelo fumo do cigarro como os dedos das mãos que neles seguravam.
Diariamente, a mesma impertinência, o mesmo olhar acusador, a mesma falência de capacidades causada pelo abuso excessivo do álcool e dos estupefacientes.
Ela, dependente do tabaco que, dizia, lhe acalmava os nervos e a ajudava a suportar a dor de uma vida dura, sem ideal e sem esperança.
Ele, completamente destroçado, agressivo e desesperado quando o dinheiro não chegava para adquirir a dose diária, remédio santo que lhe alimentava o vício e o libertava da dor da ressaca, conseguindo, assim, um bem-estar temporário, um momento alucinado e falacioso que duraria até à necessidade da próxima toma.
Os filhos, rotos e esfaimados, de rosto sujo e choroso, escondiam-se debaixo da cama, numa tentativa de se protegerem das investidas do pai que espancava sem piedade a mulher a quem chamavam mãe.
Os vizinhos…. Esses, acovardados, escutavam os pedidos de ajuda, os gritos de socorro da mulher e o choro aterrorizado das crianças, mas nada faziam respeitando a máxima que há muito conheciam:
“Entre marido e mulher ninguém mete a colher!”
E uma e outra vez a mesma cena. E uma e outra vez o mesmo dilema…
…
Nasceu o dia. À porta do miserável casebre estavam sentadas as duas crianças num transe inquietante, com o olhar perdido no vazio, sem lágrimas, sem medo, sem expectativas. Na rua, um carro dos bombeiros, uma ambulância e duas macas, nas quais jaziam dois corpos sem vida. Do triste cenário constavam ainda dois jipes da polícia e os respetivos agentes de autoridade.
Curiosos e críticos, os vizinhos estendiam-se pela rua.
A tragédia aconteceu e não faltou gente para testemunhar o ocorrido.
Todos sabiam da existência e dos problemas vividos por aquela família. A própria polícia fora chamada ao local semanas antes, mas não tomou qualquer atitude. Os factos eram na altura, “insuficientes para poderem intervir”.
Agora sim!
Havia duas crianças órfãs e dois corpos estirados no chão.
Lágrimas e dor, testemunhos vários e motivos mais que suficientes para poderem agir.
- Que fatalidade! - exclamavam os vizinhos de semblante pesado e triste, olhos a lacrimejar, ais e lamentos ecoando no ar. Porém, todos culpados!
Embora assim o não entendessem, tinham sido cúmplices daquele terrífico desfecho, pelo silêncio e passividade a que se haviam remetido.
In “PEQUENOS CONTOS – TRECHOS DE REALIDADES”, Chiado Books, 2018

Dulci Ferreira, a autora do texto