14 Feb
14Feb

A história do namoro é na realidade, a história de como aprendemos, e reaprendemos, a relacionar-nos.

The Babylonian Marriage Market - Edwin Long

Muito antes dos ecrãs e dos algoritmos de compatibilidade, o encontro entre duas pessoas era algo realmente específico e cultuado sob o olhar de todos. 

Nas sociedades tribais, o cortejo não era apenas um gesto romântico, mas, um comportamento social, ligado à sobrevivência do grupo.  

As escolhas envolviam alianças, cooperação e continuidade.  

Do ponto de vista biológico-comportamental, vínculos estáveis aumentavam a proteção da descendência e a coesão social. 

O afeto existia, mas inserido num contexto de responsabilidade coletiva. 

Com o avanço das civilizações, as formas mudaram, mas a base biológica manteve-se. Durante séculos, muitos casamentos foram arranjados por razões económicas e políticas. O amor romântico como critério central, só ganha força a partir da modernidade, quando o indivíduo passa a decidir, com base no “afeto” e na escolha pessoal. 

Deixámos de ser apenas membros de um clã para nos tornarmos sujeitos que escolhem, e que desejam ser escolhidos. 

Se antes o desafio era a falta de liberdade, hoje parece ser o excesso dela. 

Estudos do Pew Research Center, uma alta taxa de utilização de APPs de namoro, principalmente entre jovens. A tecnologia ampliou enormemente as possibilidades. Conhecer alguém já não depende do círculo social imediato. 

Em teoria, nunca foi tão fácil encontrar compatibilidade.  

No entanto, a experiência tem-se revelado ambivalente. Fala-se cada vez mais em dating app burnout. Entre os relatos mais comuns estão a sensação de descartabilidade, conversas superficiais, comparação constante, dificuldade em aprofundar ligações e ansiedade face à expectativa de resposta imediata.

Biologicamente, isto é compreensível. O nosso sistema de recompensa responde intensamente à novidade. 

Cada novo perfil ativa expectativas e pequenas descargas de dopamina.  

Contudo, os mecanismos de apego, associados à confiança e à estabilidade, exigem tempo e repetição. A lógica da novidade permanente pode competir com a construção de vínculo. 

O que antes era um processo gradual de aproximação tornou-se, muitas vezes, uma seleção rápida baseada em imagem e impressão imediata. 

Barry Schwartz, em The Paradox of Choice, defende que o excesso de opções pode gerar insatisfação e medo de decidir. A cultura do swipe (deslizar para aceitar ou rejeitar), alimenta a ideia de que pode sempre haver alguém melhor. Assim, relações tornam-se provisórias antes de começarem. 

Contudo, estudos sobre vulnerabilidade, como os de Brené Brown, mostram que ligações profundas exigem abertura emocional e coragem para permanecer. 

O apego seguro constrói-se com consistência, não com substituição constante. 

Namorar, na sua forma mais saudável, deveria ser simples, respeito mútuo, comunicação honesta, escuta verdadeira, descoberta gradual, presença real e coerência entre palavras e atos.  

Relações estáveis reduzem o stress, promovem segurança emocional e favorecem bem-estar psicológico. 

A tecnologia não é inimiga do amor. O risco surge quando aplicamos às relações humanas a lógica da rapidez e da otimização. Do cortejo tribal ao “match”, ganhámos liberdade. Agora precisamos de maturidade para a sustentar.

Porque, no fim, não é o “match” que constrói uma relação. 

É a escolha consciente de permanecer.

Bruno Collaço, o autor do texto

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.