17 Feb
17Feb

Dizes que brinco com as palavras… 

Que falo de mágoas e dor 

De amor e desamor 

De sangue e de lágrimas, vertidas por aí… 

Mas, olha à tua volta e diz-me o que vês 

O que ouves e sentes em ti… 

É que eu vejo e ouço os gritos de dor 

Das muitas vozes que ecoam por aqui 

Mas também de prazer 

Quando te estendo o corpo 

E o entendes giesta verde a bailar ao vento 

Por vezes, incendiado, 

Hirto 

Desbravado 

Renascido 

Ou já montanha caída 

Sem forças, sem vida. 


Dizes que brinco com as palavras 

Que as uso como punhal afiado 

Injustamente cravado 

Frio, ensanguentado 

Mácula das nossas manhãs… 

Por vezes, pedra arremessada 

Quase sempre sem dizerem nada 

Outras a deixar profundas feridas. 


E eu sei que assim é, 

Mas também sei que muitas vezes 

São novelos de algodão na minha boca 

Lábios frementes a procurar a tua 

Numa ânsia que não espera, 

Numa vontade quase louca. 


São oferendas em bandeja dourada 

Sempre que o sol em nós se espraia 

E sem pudor, me sussurras ao ouvido 

Numa aura apaixonada. 

Aí, sei o quanto são dor e paixão 

Porque de tanto amor 

Quase dói o coração… 

E o peito onde se encaixa. 


Dizes que brinco com as palavras 

Quando te amo e faço meu. 

Nessa altura, são doces 

Tontas 

Obscenas 

Dormentes 

Despertas 

E loucas 

E nós, assim queremos que sejam 

Quando os nossos corpos se desenham 

Entre os lençóis que nós mesmos costuramos. 

Quando as nossas almas se unem 

As nossas mãos se fundem 

E os nossos olhos se beijam.


(Direitos reservados)

Dulci Ferreira, a autora do poema

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