Dizes que brinco com as palavras…
Que falo de mágoas e dor
De amor e desamor
De sangue e de lágrimas, vertidas por aí…
Mas, olha à tua volta e diz-me o que vês
O que ouves e sentes em ti…
É que eu vejo e ouço os gritos de dor
Das muitas vozes que ecoam por aqui
Mas também de prazer
Quando te estendo o corpo
E o entendes giesta verde a bailar ao vento
Por vezes, incendiado,
Hirto
Desbravado
Renascido
Ou já montanha caída
Sem forças, sem vida.
Dizes que brinco com as palavras
Que as uso como punhal afiado
Injustamente cravado
Frio, ensanguentado
Mácula das nossas manhãs…
Por vezes, pedra arremessada
Quase sempre sem dizerem nada
Outras a deixar profundas feridas.
E eu sei que assim é,
Mas também sei que muitas vezes
São novelos de algodão na minha boca
Lábios frementes a procurar a tua
Numa ânsia que não espera,
Numa vontade quase louca.
São oferendas em bandeja dourada
Sempre que o sol em nós se espraia
E sem pudor, me sussurras ao ouvido
Numa aura apaixonada.
Aí, sei o quanto são dor e paixão
Porque de tanto amor
Quase dói o coração…
E o peito onde se encaixa.
Dizes que brinco com as palavras
Quando te amo e faço meu.
Nessa altura, são doces
Tontas
Obscenas
Dormentes
Despertas
E loucas
E nós, assim queremos que sejam
Quando os nossos corpos se desenham
Entre os lençóis que nós mesmos costuramos.
Quando as nossas almas se unem
As nossas mãos se fundem
E os nossos olhos se beijam.
(Direitos reservados)

Dulci Ferreira, a autora do poema