03 Feb
03Feb

Como arma de arremesso, punhal afiado ou chama expelida pela boca de um dragão, qual flecha certeira ou mira apontada ao peito, as palavras malditas, interditas, esquisitas que só servem para magoar. 

Tu, as usaste sem olhares o lugar, sem lhe medires a distância ou mesmo a direção…  

Não escolheste um alvo, um ponto estratégico para onde virar esse fogo irado, que te consumia por dentro, essa lava incandescente, de vulcão pronto a explodir.  

Atingiste cada pedaço do meu eu com versos feitos bala, a perfurar sem piedade o meu ego e as minhas convicções; todavia, não, a minha dignidade. 

Com invenções fajutas, crivaste de injurias os rios da minha existência. Eram apenas rios, nem sei se alguma vez ambicionaram ser mar! Mas tu julgaste-os sem ouvir dos meus lábios a verdade.  

Preferiste nem ligar, fugir ao diálogo, contornando com conversas vãs as minhas insistências em clarificar as ideias pré-concebidas, e outras puramente supostas, que as vozes da maledicência estrategicamente implantavam no teu cérebro.  

Nesses teus ‘dizeres abruptos’, não respeitaste a sensibilidade e inocência dos nossos rebentos, ainda tão pequenos e frágeis, contudo, sempre atentos ao seu redor. 

Que imagens lhes teremos deixado gravadas na alma?  

Que ideia de nós transitará nos seus corações para o futuro?  

Que traumas lhes moldarão o carácter e as atitudes? 

Basta! Não suporto mais esse ciúme doentio, esse controlo exagerado, esse sentimento de posse e superioridade. Eu sei quem sou e como sou. Sei que a ti me entreguei para que me apreendesses; para que lesses cada recanto de mim; para que do meu “eu” fizesses o cais do teu “eu”, num aportar tranquilo, mesmo quando as tempestades mais proeminentes se fizessem sentir, nesse mar agitado que sempre te reconheci e, perdida de amores, aceitei. Contigo fiquei cega, surda e muda, pois, as minhas palavras só em ti ganhavam eco, só em ti auferiam vida e se abriam num horizonte de luz, a resplandecer à claridade da expressão, da emoção, do sentir. 

Doente no corpo e na alma, mas ainda viva, delego a estes universos meus, injustamente acusados e condenados, sem sequer o benefício da dúvida, e votados ao exílio sem hipótese de se defenderem, a partida, mesmo com a alma sangrando e o corpo coberto com um “manto” de feridas. 

Este é o fim que para nós decidi. Depois de tanta dor, de tanto sofrimento, de tanto desamor, não mais olharei para trás. Quem parte assim, devastada, aturdida, mas ainda de cabeça erguida, parte para sempre.

(Homenagem às vítimas de violência doméstica que tiveram a coragem de colocar um “BASTA” à humilhação e à submissão, em suma, a uma vida marcada pela violência e pelo terror).

Dulci Ferreira, a autora do texto

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