06 Jan
06Jan

Na mitologia grega, Cronos, o deus do tempo, devorou os próprios filhos. Na atualidade, devido às exigências da vida, também somos consumidos e devorados pelo tempo. O tempo é efémero, mas a sua transitoriedade não é entendível da mesma maneira por todas as pessoas. O modo como o compreendemos varia em função da influência que exerce no nosso quotidiano. … 

Depois das festas do Natal e do Ano Novo, brevemente chegaria o dia de Reis. Esta festividade, celebrada pelos cristãos a 6 de janeiro, é alusiva aos três Reis Magos, figuras místicas que, segundo a tradição da religião cristã, vieram adorar Jesus logo após o seu nascimento.   

Gaspar, Belchior e Baltasar terão chegado à gruta onde se encontrava o Salvador guiados por uma estrela.  

Com eles traziam presentes de grande valor:   

ouro representando a realeza divina 

incensocomo símbolo da fé e da oração 

mirrauma espécie de resina usada para embalsamar os corpos no antigo Egipto. 

Estas personagens, apenas mencionadas no Evangelho de São Mateus, terão passado pelos domínios de Herodes que, desconhecendo a notícia sobre o nascimento de um novo rei, lhes pediu que quando encontrassem a criança, o informassem para que fosse também adorá-la. 

Avisados em sonhos sobre os reais propósitos de Herodes, que ao sentir o trono ameaçado mandaria matar todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos (Matança dos Inocentes), regressaram às suas terras por outros caminhos.  

Não se sabe ao certo se eram reis, sacerdotes ou astrólogos. Todavia, é como reis que são mencionados e retratados em todas as representações referentes à natividade. 

… 

Naquela noite, Joana ficara acordada até mais tarde. Sentada à lareira, bebericava uma chávena de chá para aquecer o corpo e a alma. 

O vento soprava forte e a neve ‘buraqueira’ - assim designada por dona Dolores por se infiltrar pelas frinchas das portas e pelos buracos das velhas paredes de granito - ia-se amontoando por todo lado, pintando de branco a pitoresca aldeia e clareando a noite fria. 

De olhar fixo nas chamas que consumiam a lenha que ia deitando na fogueira, a jovem refletia sobre a efemeridade do tempo e das coisas. Ainda há poucos dias se havia comemorado o Natal e já a festa de Ano Novo tinha passado também. A azáfama e animação que antecederam as festas do final do ano davam agora lugar à simplicidade e à melancolia de um tempo que fora tão breve como a euforia do momento da troca dos presentes que já não eram. O tempo voava, não permitindo intensidade no viver e desfrutar das coisas. 

Colocou um pouco mais de lenha na lareira e ficou a ouvir o seu crepitar. As panelas de ferro ferviam ao lume, já adiantando a sopa do dia seguinte. Joana levantou o olhar e observou o negrume do caniço, onde os pais colocavam castanhas para pilar, e que sustinha no momento duas varas compridas de salpicões e chouriças a defumar. O fumeiro da mãe era o melhor da região, segundo certas pessoas a quem dona Dolores dava ou vendia algumas peças. Pendendo das mesmas varas, embora uma em cada lateral, estavam duas pás de porco curadas, antecipando os presuntos que permaneciam em repouso na salgadeira. Por cima do canto da lenha, suspensos na grande trave de madeira enegrecida pelo fumo, exibiam-se vários cabos de cebolas e uma réstia de alhos. Os seus olhos miraram o canto da lenha. Estava quase vazio. Se o inverno continuasse tão intenso e rigoroso como até ali, iriam passar frio. Era preciso fazer alguma coisa. E a neve que não parava de cair.

… 

O relógio da torre da igreja bateu as zero horas. Ainda que com pouca vontade de tirar a roupa, Joana despiu a saia de fazenda lisa e a blusa de chita às bolinhas brancas e pretas, enfiou a camisola de dormir e aconchegou-se no divã, onde Rita e Carolina dormiam tranquilas há um par de horas. 

- Ai, que fria! - Exclamou Carolina, ensonada. 

-Fogo! Chega os pés pra lá, caraças! Estás gelada! - resmungou Rita, empurrando com os seus, os pés frios de Joana.    

-Vá lá, meninas! Não sejam assim! Deixem-me ficar entre as duas. Estão tão quentinhas!…    

- És uma chata do pior! Gostavas que te fizessem o mesmo? Olha… Agora que me despertaste, vais ter de me ouvir! - rezingou Rita, mal-humorada. 

- Schiuuu… - fez Joana colocando o dedo nos lábios. - Os pais estão a dormir! Ai de vós se eles acordarem! Nem sabem o que vos faço… Deixem de ser resmungonas e egoístas! Cabemos as três e assim, juntinhas, aquecemos melhor. 

Se o divã já era pequeno para duas, imagine-se para três!... Pareciam sardinhas em lata de conserva… 

Acordaram de manhãzinha todas moídas. Dolores já tinha acendido o lume, mas demonstrava preocupação ao olhar o canto vazio. Teriam mesmo de fazer alguma coisa. 

- Mãe… Onde está o pai? - perguntou Joana. 

- O pai está a limpar a neve das escaleiras. Caiu a noite inteira!   

- Mas o dia melhorou! Pelo menos, já não está a nevar…  

- Sim, está melhor! Mas, com meio metro de neve, quem é que se atreve a sair à rua? O que mais me preocupa é não termos lenha. E o gado fechado na loja, a comer seco faz tempo!... Com tanta neve, não sei quando poderá sair para o pasto. O palheiro já tem pouco feno. Se o tempo não muda…  

De tanto ouvir pronunciar o vocábulo TEMPO, Joana refletiu sobre os seus múltiplos significados. 

O tempo – prazo, período, duração, época, estação, quadra, momento. 

O tempo cronológico da narrativa histórica e o tempo da ação. 

O tempo clima, condição atmosférica. 

O tempo de ser e de fazer… 

O tempo… O tempo… 

- É. Está a ser um inverno fora do comum. Ninguém previa este mau tempo. E amanhã é dia de Reis!… - Pronunciou. 

- Pois é, querida! Como o tempo passa!... - Respondeu Dolores de expressão triste no olhar. - Os dias correm apressados e eu e o teu pai estamos cada vez mais velhos e cansados… 

- Ó mãe… Não estamos todos? O tempo não dá tréguas a ninguém! Vá… vamos lá decidir como vai ser o dia de amanhã! 

- O dia de amanhã… - adiantou Carolina – será um dia igual a tantos outros. Com um tempo destes, duvido que alguém saia de casa para festejar os Reis. Confesso que já estou farta de neve. Há mais de uma semana que é assim. Quero que o sol volte a brilhar nas nossas vidas! Quero luz e calor! Quero correr por aí, brincar com os meus amigos, enfim… quero viver! 

-Eu também quero que este inverno acabe! Quem sabe, amanhã despertamos com um sol radiante?! Milagres acontecem! Mas, olha lá, Carolina… Não estavas aborrecida comigo? - perguntou Joana. 

-Claro que não! Mas o melhor é dormires na tua cama. Se quiseres, dormirei contigo o resto do inverno!... – Argumentou, animada.   

- Vou pensar nisso, mas a Rita também precisa de ti!   

- Pois… ficamos à vez, está bem?   

- Combinado! Ficamos à vez.  

… 

Depois do almoço, o tempo abriu. 

Preocupado com a família e com o rigor do inverno, João aventurou-se a rasgar caminho e a ir buscar lenha ao pinhal que ladeava o pequeno corgo. A camada de neve não lhe permitia ver onde se encontravam os candes que tinham caído com o peso da neve, mas ele meteu mãos à obra e destapou algumas pernadas que a custo, arrastou até casa. 

Ao ver o marido todo molhado e a tiritar de frio, Dolores e as raparigas correram ao seu encontro. João não estava bem. O ar gélido e o remover a neve com as mãos paralisaram-lhe a circulação do sangue e os movimentos nas pontas dos dedos. Agoniado por causa das terríveis dores, o homem acabou por vomitar o almoço. Depois de o mudarem de roupa, deitaram-no junto à lareira para que se aquecesse e recuperasse do seu atrevimento. 

… 

O dia de Reis chegou finalmente. A noite tinha sido tempestuosa, com o vento e a neve a fustigar a aldeia. A temperatura baixara ainda mais. A serra montemurana erguia-se imponente, vestida de branco, robusta e simultaneamente delicada, qual noiva expetante e sobranceira, abraçando o universo ao seu redor. Nas ruas, não se via vivalma. 

João estava doente. A aventura do dia anterior trouxera-lhe, como recompensa, uma valente gripe. Totalmente recuperado da paralisia dos membros superiores, teria agora de ser paciente até se restabelecer por completo. Cabia às mulheres da casa solucionar tarefas e problemas. 

Joana zanzava de um lado para o outro, fazendo ranger as tábuas do velho soalho. O seu pensamento voltara a centrar-se na complexa questão do tempo. Os dias haviam passado tão depressa que nem fruíra as festas como queria. Ao refletir mais profundamente sobre o assunto, concluiu que tudo depende do modo como se leva a vida. 

Para quem leva a vida de forma rotineira e sem grandes ocupações, o tempo eterniza-se, arrastando-se em intermináveis horas. Contudo, devido às sucessivas festividades da época e à azáfama exigida pelas circunstâncias, as pessoas foram obrigadas a abandonar o ‘rame-rame’ quotidiano e a acelerar o ritmo. Com tanta coisa para fazer, nem deram pelo passar do tempo. 

Sempre efémero, o tempo é, como diz Machado de Assis: 

Pouco para o muito que esperamos”.     


Interior da Casa Grande – Farejinhas – Castro Daire Pormenor do compartimento designado “Casa do Forno”


In “PEQUENOS CONTOS – TRECHOS DE REALIDADES” 

- Chiado Books, 2020  

Dulci Ferreira, a autora do texto

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