Posso não a ver a olhos nus, mas sei exatamente onde foi plantada... o momento em que ela rebenta o solo é sempre uma incógnita. Contudo quando ela se "mostra", aquele momento de sagrado silêncio, não há como deixar de ver.
Vejamos não apenas a flor, pois a verdadeira viagem começa muito antes — no escuro, no húmus, no silêncio onde nada parece mover‑se. A semente, pequena como um segredo, inicia ali o seu caminho quântico:
Vibra antes de crescer
Pressente antes de romper,
Conversa com o solo numa linguagem que não ouve, mas sente.
No subterrâneo, ela não avança em linha reta.
Expande-se.
Contrai-se.
Testa a densidade da terra, mede a humidade, escuta o pulso invisível que atravessa tudo.
A sua força não é barulho, é insistência.
Um diálogo íntimo com o impossível.
Cada milímetro conquistado é uma escolha silenciosa.
Cada fissura aberta na escuridão é um ato de fé no que ainda não existe.
A semente empurra o solo como quem empurra o próprio destino.
Não vê a luz, mas sabe que ela está lá.
Não conhece o caminho, mas reconhece a direção.
Nesse esforço mudo — num parto invertido — ela rasga a terra, rompe o limite, atravessa a fronteira entre o que é oculto e o que se revela.
Quando finalmente emerge, não é apenas um broto. É a prova de que tudo o que cresce passa primeiro por um território invisível. Que a luta mais profunda acontece longe dos olhos. Que a luz só é possível porque houve um tempo de sombra que a preparou.
É na sombra que se prepara a entrada na Luz.
E assim, a semente ensina:
- O que parece imobilidade é trabalho interno.
- O que parece silêncio é transformação.
- O que parece escuridão é apenas o intervalo antes do nascimento.
Porque há caminhos que só se fazem por dentro — até que um dia, inevitavelmente, a luz nos reconhece.

Ruth Collaço, a autora do texto