15 Feb
15Feb

Posso não a ver a olhos nus, mas sei exatamente onde foi plantada... o momento em que ela rebenta o solo é sempre uma incógnita. Contudo quando ela se "mostra", aquele momento de sagrado silêncio, não há como deixar de ver. 

Ruth Collaço 

Vejamos não apenas a flor, pois a verdadeira viagem começa muito antes — no escuro, no húmus, no silêncio onde nada parece mover‑se. A semente, pequena como um segredo, inicia ali o seu caminho quântico: 

Vibra antes de crescer

 Pressente antes de romper,  

Conversa com o solo numa linguagem que não ouve, mas sente. 

No subterrâneo, ela não avança em linha reta. 

Expande-se.  

Contrai-se. 

Testa a densidade da terra, mede a humidade, escuta o pulso invisível que atravessa tudo.  

A sua força não é barulho, é insistência.  

Um diálogo íntimo com o impossível.  

Cada milímetro conquistado é uma escolha silenciosa. 

Cada fissura aberta na escuridão é um ato de fé no que ainda não existe. 

A semente empurra o solo como quem empurra o próprio destino. 

Não vê a luz, mas sabe que ela está lá.  

Não conhece o caminho, mas reconhece a direção.  

Nesse esforço mudo — num parto invertido — ela rasga a terra, rompe o limite, atravessa a fronteira entre o que é oculto e o que se revela. 

Quando finalmente emerge, não é apenas um broto. É a prova de que tudo o que cresce passa primeiro por um território invisível. Que a luta mais profunda acontece longe dos olhos. Que a luz só é possível porque houve um tempo de sombra que a preparou. 

É na sombra que se prepara a entrada na Luz. 

E assim, a semente ensina: 

-  O que parece imobilidade é trabalho interno.  

-  O que parece silêncio é transformação.  

- O que parece escuridão é apenas o intervalo antes do nascimento.  

Porque há caminhos que só se fazem por dentro — até que um dia, inevitavelmente, a luz nos reconhece.

 

Ruth Collaço, a autora do texto

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