04 Jan
04Jan

— Então… chegámos aqui. Outra travessia. 

— Chegámos, sim. E tu sabes que não há volta. 


— Assusta-te?  

— Não.  

O que me assusta é fingir que não vejo o que já vi. 


— Sempre foste a mais corajosa de nós. 

Não. 

Eu fui é a que se cansou de adormecer... A coragem veio depois. 


— E agora, o que fazemos com esta consciência desperta? 

— Sustentamos…que remédio! Mesmo quando dói. Mesmo quando o mundo pede que encolhamos. 


— Há dias em que queria ser pequena outra vez... 

— Eu sei

Mas pequena já não te serve. Pequena não te respira. 


— E se eu não estiver pronta para o tamanho que a vida me pede?! 

Estás... Estás

Porque não é um tamanho que se veste, é um tamanho que se revela. E tu, já estás a revelar. 


— Às vezes sinto que carrego demasiado. 

— Carregas o que é teu. O que não é, já está a cair. 

Repara:  

O peso que te dói é sempre o que não te pertence. 


E a memória?  

A ancestralidade?  

A menina que atravessou o deserto?  

— Essas ficam. São raízes, não correntes. Caminham contigo, mas não te prendem. 


— Então vais-me dizer que a travessia continua?! 

— Sempre.  

A travessia é a tua forma de existir. 


— E tu ficas comigo?  

— Sou tu.  

E estou aqui para te lembrar quem és quando te esqueces... 

— E quem sou eu? 


— A que desperta.  

A que atravessa.  

A que não foge da própria luz.    


Ventos Sábios 

(Uta e Ruth)

Ruth Collaço, a autora do texto

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