— Então… chegámos aqui. Outra travessia.
— Chegámos, sim. E tu sabes que não há volta.
— Assusta-te?
— Não.
O que me assusta é fingir que não vejo o que já vi.
— Sempre foste a mais corajosa de nós.
— Não.
Eu fui é a que se cansou de adormecer... A coragem veio depois.
— E agora, o que fazemos com esta consciência desperta?
— Sustentamos…que remédio! Mesmo quando dói. Mesmo quando o mundo pede que encolhamos.
— Há dias em que queria ser pequena outra vez...
— Eu sei.
Mas pequena já não te serve. Pequena não te respira.
— E se eu não estiver pronta para o tamanho que a vida me pede?!
— Estás... Estás.
Porque não é um tamanho que se veste, é um tamanho que se revela. E tu, já estás a revelar.
— Às vezes sinto que carrego demasiado.
— Carregas o que é teu. O que não é, já está a cair.
Repara:
O peso que te dói é sempre o que não te pertence.
— E a memória?
A ancestralidade?
A menina que atravessou o deserto?
— Essas ficam. São raízes, não correntes. Caminham contigo, mas não te prendem.
— Então vais-me dizer que a travessia continua?!
— Sempre.
A travessia é a tua forma de existir.
— E tu ficas comigo?
— Sou tu.
E estou aqui para te lembrar quem és quando te esqueces...
— E quem sou eu?
— A que desperta.
A que atravessa.
A que não foge da própria luz.
Ventos Sábios
(Uta e Ruth)

Ruth Collaço, a autora do texto