Eu... que respiro por dentro
Caminho entre luz e sombra
como quem atravessa um campo ardente.
Sinto a delicadeza do vibrar na pele,
um fio fino que estremece
sempre que a vida me oferece escolhas que pesam.
Se o mundo vê graça, equilíbrio, um brilho
Dormente em mim há um silêncio atento,
Um faro que reconhece a mínima rutura no ar,
A tensão antes da palavra,
O rumor que antecede a tempestade.
Não te iludas, não sou frágil.
Sou corpo que aprendeu a dançar no trovão
No chão respira e na emoção que pulsa.
Equilibro o que penso e o que sinto
como quem segura as águas nas mãos
com cuidado, com instinto, com verdade.
A minha calma tem textura.
Por vezes é vento morno,
Por vezes é pedra quente,
Outras ainda apenas maturidade
A lucidez que sabe exatamente
onde pousa o pé…
E se o chão for navalha
Eu piso
Por escolha...e sabendo porquê.
(…)
Porque há quem caminhe pelo mundo com a pele aberta ao invisível, percebendo no ar aquilo que ainda não tomou forma. Há quem leia o silêncio como quem lê constelações, encontrando nos intervalos da matéria a vibração que anuncia mudança.
Não é fragilidade — é uma afinação fina com o que existe para lá do óbvio, uma escuta que toca o campo subtil onde tudo começa antes de acontecer.
Há quem saiba que a coragem não é ausência de medo, mas a escolha consciente de avançar mesmo quando o chão parece apenas uma hipótese.

Em cada gesto, cada passo que se oferece ao desconhecido, revela-se a maturidade de quem já dançou com o trovão e aprendeu que a realidade também se molda por dentro.
Porque há quem respire assim:
- Entre o visível e o quântico
- Entre o corpo e o campo
- Entre o que dói e o que desperta.
E cada passo é uma declaração silenciosa de presença — lúcida, inteira, irreverentemente verdadeira.

Ruth Collaço, a autora do texto